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3 de Abril de 2020

Equilíbrio na ética: qual a pitada ideal?

Andréa Ueda, Advogado
Publicado por Andréa Ueda
há 8 meses

Há muito se fala e sempre se acaba em discussões homéricas a respeito da ética nas relações sociais, no geral, desde o olhar individual da mesma (agir de forma ética, no dia a dia, respeitando os demais, a coletividade, sendo íntegro, etc), passando pelo coletivo de uma Nação (a ética nas corporações é de longe a que mais se insufla e se desenha atualmente, partindo-se de histórias como a da Lava-Jato), até alcançar-se o além-mares ou o extraterritorial ou transnacional.

Mais do que bem-vindas todas essas discussões, já que o tema é um dos mais antigos no planeta Terra e traz páginas e páginas de textos por conta e para ele escritos.

Contudo, o que sempre sinto é que o tema é levado ao seu extremo de forma tal, que se polarizam posições de modo tal, que acabamos com divisões dentro da própria dinâmica sobre o que é ético ou não em termos fáticos, e que gera, ao final, um desequilíbrio na modelagem do que, ao final, devemos seguir como sendo a atitude ética e correta.

Basta vermos que existe um choque constante e forte entre realismo e idealismo, que coloca em xeque se o que vemos, lemos e ouvimos são discursos favoráveis ou não a uma ética tal e qual a que temos desenhada em nossas mentes e histórias.

O que quero dizer é que, pelo que tenho visto, o desequilíbrio humano numa sociedade pode chegar a tal ponto que, o choque entre as diferentes frequências (como radiofrequências) que os cidadãos adotam para se guiarem, tomando por base sua ideologia ou a realidade onde vivem, que se perde, ao final do dia, a noção (ou ao menos o norte) do que realmente é ético em termos puros. Acaba existindo a ética relativa de acordo com o ideal que patrocino ou patrocina por mim.

Por óbvio, filósofos e grandes autores já se debruçaram sobre os temas da ética, da retidão moral e da justiça (em seu mais amplo e elevado grau de pureza) e aqui longe de mim querer expor ou contrapor alguma noção teórica que essas mentes brilhantes já lograram fazer. Apenas exponho algo que senti lendo um curto, mas objetivo, claro, incisivo e profundo texto de Juliana de Albuquerque na Folha, intitulado “Literatura de séculos passados ajuda a compreender dilemas atuais”[1], no qual, de maneira genial, a autora discorre sobre o contraponto entre passado e posições atuais e nosso enfrentamento ou posicionamento, exacerbado ou não, frente aos mesmos.

Esse brilhante texto, para o qual direciono os leitores deste para que o leiam e sobre o mesmo bem reflitam, me fez repensar muitas posturas que adotei (ou não, onde fiquei passiva frente aos fatos que se descortinavam) ou palavras ou posições que tomei, em razão de pouco refletir ou seguir a massa idealizada ou a realidade massificada.

Creio que temos que passar a ser mais equilibrados em nossas posições, sempre, e em especial, quando um conjunto de fatores e elementos que refletem uma ética envolvida correspondem ao material fulcral que será usado para “jogar na nossa cara” a eventual falta ou falha de reflexão. A ética exige que tenhamos parcimônia nos atos e nas palavras.

Participo de grupos de estudos de compliance, atou com a elaboração de políticas e códigos de conduta para Startups e muito leio e me aprofundo sobre o tema, que, nos primórdios, era lembrado puramente como “anticorrupção”, com base nas regras do FCPA dos EUA. Mas confesso que passei a refletir sobre o tema do ponto de equilíbrio que esses assuntos devem ter frente às mais diversas crenças e atitudes e idealismos políticos, pois, muitas vezes, ao se massificar um enfoque poderemos estar disseminando uma atitude ou um olhar equivocado sobre a ética aplicável.

E não me interpretem mal aqueles que estão lendo e acreditando que estou a disseminar que existem diferentes éticas ou morais e que isso implicaria dizer que se aceitariam atos de corrupção ou antiéticos por si, e, que, portanto, não se teria motivação para se defender o uso éticos dos meios, das palavras, das atitudes, enfim, que cada um teria sua ética.

O que quero transparecer (e que fica realmente difícil sem cair numa armadilha linguística) é que, ainda que defendamos as posturas éticas, morais e legais, de acordo com as regras e as políticas e as posturas legalmente praticáveis e aceitas, existem pontos de divergência que existirão não em razão das bases conceituais de tais ternos e temas, mas, antes, em razão de ideologias e posições de uma dada realidade histórica, social e econômica, que exigirão que demos um passo atrás antes de refutar ou questionar ou criticar determinada postura ou ato.

O ponto de equilíbrio da ética é, acima de tudo, o ponto de equilíbrio do que é humano, da essência dos seres e de suas mais profundas crenças. Sem percebermos isso, política, ideologias, senso de dever e moral, posturas sociais e econômicas, tudo acaba se misturando num caldeirão que esquenta e cozinha esse dever de equilíbrio e queima qualquer pitada de parcimônia que se queira acrescer depois.

Antecipar de forma equilibrada o jogo é o melhor movimento nesse tabuleiro. Está aí a vida, a exigir a pré-avaliação e não a afoiteza nos julgamentos, ainda que estampados com o selo da ética, pois agir por impulso prejudica a jornada da sua proteção e do seu resguardo, podendo até mesmo destruí-la.


[1] Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/colunas/juliana-de-albuquerque/2019/07/literatura-de-seculos-passados-ajudaacompreender-dilemas-atuais.shtml>. Acesso em: 30.07.2019.

(artigo originalmente publicado na minha página no LinkedIn, em 30.07.2019)

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